Nostalgia inventada
Entre o digital que vivemos e o analógico que roubamos
Semana passada viajei a trabalho para a Praia do Rosa e, como a apaixonada que sou por fotografar despretensiosamente, acabei registrando tudo: meus amigos, a praia, os clientes que atendemos. Enquanto editava essas fotos — de novo, despretensiosas, feitas só para guardar, sem a pressão de um produto ou entrega — percebi o quanto pesei em alguns aspectos: cores mais saturadas, um grão pesadíssimo. E nossa… como eu gosto da fotografia digital com cara de analógica.
Foi essa mistura ambígua que me despertou uma espécie de nostalgia. Enquanto editava, dois dias depois, já conseguia me imaginar revisitando essas fotos daqui há 20 anos e lembrando, com afeto, da vez que fotografei uma praia de Santa Catarina.
Essa situação me fez perceber algumas coisas: o quanto esse sentimento de “saudade” se tornou presente, quase constante. Ao longo desse ano, li diversos textos e comentários sobre a Geração Z reviver tendências antigas que nem pertencem à nossa história direta. Mas, vivendo essa pequena experiência ali, na minha própria linha do tempo, tudo fez ainda mais sentido: não é só estética. É emocional.
E talvez isso tenha muito a ver com o fato de que nós fomos jogados direto em um mundo acelerado, instável, cheio de expectativas e crises seguidas. Não tivemos tempo de transição. Tudo sempre aconteceu ao mesmo tempo: redes sociais, crise climática, pandemia, colapso político e pressão por “ser alguém” aos 20 e poucos anos. Às vezes parece que o presente é demais, e o futuro, de tão incerto, se desenha sempre meio turvo.
E é nesse descompasso entre o agora e o amanhã que o passado, mesmo o que não vivemos, começa a parecer um lugar mais confortável. Revisitar estéticas antigas, usar câmeras analógicas, ouvir músicas dos anos 2000 ou adotar hobbies manuais não é só charme retrô. É quase como apertar um botão de pausa em um mundo que nunca para.
Quando olho para as minhas fotos do Rosa, percebo que não estou tentando copiar uma época. Talvez eu só esteja tentando desacelerar.
Percebo que fui afetada de outras formas - esse ano passei a colecionar CDs, Vinil e a fotografar com câmera analógica -, será exagero ou drama, dizer que busco um pouco de profundidade em um cenário que exige presença constante, imediata e performática?
Acho que, no fim das contas, essa nostalgia que sentimos funciona como um tipo de autorregulação emocional, um jeito de resgatar calma. Talvez um pouco da nossa infância.
Eu não sei você, mas eu vivo cansada da lógica da hiperexposição. Curtidas, métricas, relevância, engajamento… tudo isso não deveria moldar quem achamos que somos.
Por isso, já não vejo como surpresa que a gente se apegue às memórias emprestadas, ao analógico que engole menos a gente.
Quando faço algo com as mãos, seja fotografar em filme, pintar, cozinhar, ouvir LPs, sinto na prática aquilo que muitos especialistas descrevem: a mente desacelera, a ansiedade diminui, e aquela dopamina impulsiva do feed dá espaço para foco. Para presença real.
E por isso tantos de nós redescobrimos crochê, vinil, cerâmica, câmeras antigas, pulseiras dos anos 2000. Claro que não é sobre voltar no tempo, até porque boa parte disso não foi necessariamente vivido pela gen z, mas é reconectar com algo mais paupável, menos digital?
Impossível não destacar que o mercado enxergou isso. Marcas e criadores transformaram nostalgia em estratégia, e a gente, sem perceber, viraliza tudo que ativa algum tipo de memória afetiva, mesmo que seja uma memória inventada.
Enquanto eu escrevia, pesquisei sobre e encontrei uma matéria que dava nome à esse movimento: newstalgia.
algo novo que desperta saudade. Um remix que se veste de passado para tocar uma emoção presente.
Às vezes isso aparece até em coisas inesperadas: um funk antigo ressuscitado em versão anos 80 por inteligência artificial (se você não ouviu, eu indico), ou até a música da Kate Bush, que simplesmente estourou em 2022 com a 4a temporada de Stranger Things. Não só música, mas a estética Y2K repaginada, a volta da procura por revistas impressas, do junk journal, até as friendship bracelets…
Ouso dizer que o consumo dessas tendências de retorno nos mostram como somos especialistas em transformar tudo em tendência, e tendência em pertencimento.
No fundo, quero enxergar por uma ótica mais positiva e pensar que essa é a palavra: pertencimento.
Porque viver em um tempo tão rápido, tão instável e tão conectado pode deixar a gente desestabilizado, desencontrado: então buscar o passado, mesmo que não seja nosso, é um jeito de tentar se localizar. De criar continuidade. De imaginar que existe um fio ligando tudo isso, a gente, o caos, o mundo, o tempo.
E talvez seja isso que eu tenha sentido enquanto editava aquelas fotos do Rosa: uma nostalgia confusa, feita do que já vivi, do que deixei passar e do que ainda nem sei se vai existir.
No final, acho que a nostalgia que carregamos não precisa ser só sobre consumo, comportamento, capitalismo - isso a gente já sabe, mas ela pode ser um respiro. Um espaço seguro. Um ponto de apoio para entender o presente e, quem sabe, inventar um futuro que faça sentido.
Com isso, quero convidar você a ouvir o álbum da Kate Bush, não só a música Running Up That Hill, mas o álbum Hounds Of Love.
E também a participar de algo bem nostálgico: uma espécie de rede social nova, e até lembra as comunidades do Orkut… Mas muito melhor. O Astra Club é a nossa comunidade, feita para profissionais criativos, com aulas, trocas, pessoas incríveis (e reais!) É mais íntimo que o Instagram e até mais profundo do que aqui.
Por fim, nós lançamos oficialmente nosso podcast: The Backstage. E o 1o episódio já está disponível.
Obrigada por ler até aqui.
Com amor e incertezas,
Juliana Reichow.



